Aprenda como se reconectar com sua essência verdadeira, romper com padrões que te afastam da plenitude e permitir que a vida flua por você. Um texto profundo sobre espiritualidade, natureza e autoconhecimento
Quando deixamos de ser quem somos
Durante muito tempo, vivi tentando me ajustar ao que esperavam de mim. Isso me fez conhecer uma prisão que me impediu de seguir em frente e me trouxe um estado de tristeza que nenhuma criatura merece sentir — e que me obrigou a lutar por liberdade como única saída para a sobrevivência.
Foi aí que entendi: ninguém realmente se importa comigo. Todos estão tão presos às suas próprias prisões, que a única coisa que fazem é projetar em mim suas frustrações, suas tristezas, suas angústias…
Muitas vezes, estão apenas tentando nos proteger daquilo que já fez mal a eles, mesmo que isso não faça sentido algum para nós.
No fim das contas, sou só eu comigo mesmo. Por mais que eu tenha laços sanguíneos ou afetivos com tantas pessoas, cada um precisa, em algum momento, viver sua individualidade.
A metáfora da laranjeira: tentamos dar frutos que não são nossos
A necessidade de se encaixar em um modelo pronto nos leva a desenvolver um jeito de ser que não é nosso, naturalmente.
Imagina uma laranjeira, nascida na região dos vinhedos da serra gaúcha, que decide que precisa produzir uvas. Imagina o esforço, o desgaste e a frustração que ela terá tentando ser o que não é — apenas por acreditar que ser um pé de uva é a razão do sucesso e da felicidade.
Ela esquece, ou talvez nem chegue a conhecer, que sua verdadeira plenitude está em produzir laranjas. E não compreende o quanto isso é importante, o quanto o mundo precisa que ela produza boas laranjas.
Tal qual a laranjeira, a maioria de nós tenta ser ou produzir algo que não tem condições naturais de ser. Se frustram e sofrem tentando forçar sua natureza a ser o que não nasceu para ser e não entende que o mundo precisa do que só ela pode produzir.
Na natureza, entre animais e planta, essa disfunção não acontece. As espécies nascem e se desenvolvem naturalmente. Elas não tentam ser o que não são, porque, diferente dos humanos, elas não têm consciência. Elas não pensam. Assim, o que deveria ser uma bênção se torna uma maldição.
O pecado original: quando tentamos controlar a vida
O fato de sermos seres dotados de consciência nos faz pensar demais sobre o que deveríamos ser. Criamos uma ideia de sucesso baseada no sucesso dos outros, mas que não serve para nós.
Buscamos ser o que não somos, e nos confundimos tanto, nos perdemos tanto, que já não conseguimos mais nos reconhecer. Já não sabemos quem somos de verdade.
Quando, na história da criação do mundo, Deus cria o céu, a terra, as águas, todas as plantas e animais, Ele vê que tudo é muito bom. É perfeito.
Mas então, sente a necessidade de criar uma espécie que seja guardiã, que cuide de toda a criação. É assim que Ele cria o ser humano, à Sua imagem e semelhança. Não na forma física, mas na inteligência.
Em determinado momento, porém, somos tentados a comer do fruto do conhecimento, com a intenção de sermos tão poderosos quanto Deus, de termos o poder de controlar a vida.
Aí está o grande pecado original: querer ser Deus.
É nesse momento que “percebemos que estamos nus”, ou seja, perdemos nossa intimidade com Deus, nossa proximidade com o Sagrado. Somos expulsos do paraíso, condenados a viver pela nossa própria sorte, pela força do nosso próprio controle.
A perfeição da natureza e a ilusão do controle
Quando Deus cria cada criatura, Ele sopra nelas a energia da vida. Todos nós possuímos essa mesma energia , um pedacinho de Deus.
Somos todos nutridos da mesma força. Somos todos filhos do mesmo Pai e Mãe). Somos todos irmãos. Somos todos natureza.
Quando Jesus percebe a angustia dos discípulo com as preocupações do dia a dia ele diz “Olhem para as flores como vestem sem igual. Vejam as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celeste as alimenta”,
Ele quer nos mostrar que a natureza é perfeita. Que não precisamos nos preocupar tanto. Que não precisamos controlar tudo.
A diferença entre nós e os demais seres é que pensamos demais. Criamos uma vida ideal — que muitas vezes é oposta à vida natural.
Olhem as flores. Elas não fazem nada… e ainda assim são lindas. Olhem os pássaros. Olhem a perfeição da natureza: cada espécie possui um propósito natural. E simplesmente permite que a vida viva por ela.
Cada um de nós é uma expressão da perfeição divina. Mas esquecemos disso.
Não nos sentimos parte da natureza, nos colocamos acima dela. Queremos ser Deus.
E assim, bloqueamos o fluxo natural da vida. Não deixamos a vida viver por nós. Não deixamos Deus viver em nós.
E tentamos tanto ser o que não somos, que chegamos ao ponto de não sabermos mais quem somos.
A terra prometida está dentro de nós
A nossa experiência terrestre se torna uma eterna caminhada de volta para aquilo que sempre fomos ou deveríamos ser. Tal qual a peregrinação no deserto, quando Moisés caminhou durante quarenta anos rumo à terra prometida.
Só que essa terra não é um lugar físico, com localização geográfica.
Essa caminhada é, na verdade, uma conversão interior, uma jornada de autoconhecimento. Um processo de desconstrução daquilo que achamos que é certo. É a retirada, uma a uma, das máscaras que fomos colocando ao longo da vida.
Até encontrarmos, dentro de nós, o paraíso. Porque o paraíso, a terra prometida, o Reino de Deus está dentro de nós. E é lá que Deus existe. É lá que Ele quer se manifestar.
Como voltar à nossa essência e viver plenamente
Para ajustarmos a rota da nossa peregrinação, precisamos nos reconhecer.
Entender o que nos faz mal e nos afastarmos disso. Ter consciência do que nos faz bem e nos aproximarmos.
E isso é um processo individual, respeitando a naturalidade de cada um.
A primeira coisa que precisamos fazer é dar um basta. Parar de nos machucar.
Para mim, o que funcionou foi me conectar com o agora, com o que está acontecendo neste momento, pois, afinal, é o único tempo que existe.
Infelizmente, passamos a maior parte do dia ansiosos com o que pode acontecer no futuro, e tristes, remoendo os erros do passado.
E com isso… não vivemos o presente.
Para mudar isso, precisamos nos reconectar com o agora. Observar o nosso corpo, perceber a nossa respiração, tomar consciência do que pensamos, sem se envolver emocionalmente com os pensamentos. Esse é o primeiro passo para viver plenamente.
Exercício de pausa consciente
Cada vez que se sentir angustiado, triste pelo passado ou ansioso pelo futuro, apenas pare.
Permita-se ouvir a natureza, seja o canto dos pássaros, o som do vento, o barulho dos carros ou até mesmo o ruído da correria do dia a dia.
Apenas pare e sinta.
Preste atenção nos sons, nos odores, na sensação do teu corpo. Repare no que teu pensamento te traz, não como um alerta para retomar o ritmo frenético e doentio da realidade, mas como um observador, que tem o poder de escolher o que pensar e o que sentir.
Faça o exercício de se concentrar em um único sentido: seja a audição, o olfato, ou a sensação do ar tocando a pele, o ar entrando e saindo suavemente pelas narinas…
Faça disso um momento de pausa consciente, para retomar a calma e, aos poucos, a conexão com a vida que quer se manifestar por meio de você. Isso é cultivar tua naturalidade, a tua espiritualidade.
Permita-se soltar. Permita-se não controlar. Permita deixar a vida viver por você.
